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O SILÊNCIO

  • Foto do escritor: Punctum Ars et Adfectus
    Punctum Ars et Adfectus
  • 1 de jul. de 2021
  • 2 min de leitura


O silêncio é por vezes assustador para quem escuta. Um ato sem determinação, um hiato pulsante, respiro do som.


Martin Heidegger em Do Acontecimento Apropriador, convoca o silêncio como aquele que hesita e reconfigura o Ser em retenção. Pressentimento cortante, onde a palavra recua para se redizer, acontecer e, apropriar-se na poética originária. O buraco no meio da paisagem, mundanidade fundante, con-vocando o Ser a se presenciar.


O Ser se angustia para se re-velar no/ao mundo, seu lugar final, longamente estendido. Possível alcançar da pátria (solo natal), palavra apropriadora interrogada no silêncio.


A psicanálise junta-mente com Heidegger, desbrava esse precipício abrindo uma trilha em meio ao não saber. O ato analítico suspende através do silêncio qualquer imposição já cartografada. Na sala de análise há suposições, reedições. Um acontecer entre dois na palavra, tonalizada em propulsante silêncio, o próximo respiro.


Ouvir é reter, hesitar e, recalcular a rota, balizando o caminho silencioso. Lacan em seus Escritos interroga esse ouvinte no silêncio, que não é o Um e nem o Dois, mas o Três: ‘’não existe palavra sem resposta, mesmo quando só encontra o silêncio, desde que haja um ouvinte (...)’’. Como o ancestral auscultador intuíndo a nascente no solo, o Um ao Outro, predicado, é, bússola.


Consonância com o redizer; reapropriação de um sonho. Derradeiro momento da recusa, precipitação na clareira, a fim de escutar o eco mudo da pátria. Enigma, tonalidade afetiva. Semitom que faz fermata, pausa.


Silenciarte, interrogar a perda; falar.


Ausência, vazio, buraco, chamado.


Compartilhada

a-sujeitada.


Recriarte de um brado destoante no ruído, o rupto intimidador repouso...


Silêncio lavra presença, existência.


Hélvio Benício

Dezembro/2020


HEIDEGGER, Martin. “Contribuições à Filosofia: Do Acontecimento apropriador”. Rio de Janeiro: Ed. Viavérita, 2014.

LACAN, J. “Escritos”: Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 1998. p.248.


 
 
 

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