PINTURA PNEUMÁTICA
- Punctum Ars et Adfectus

- 2 de abr. de 2025
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A Pintura Pneumática nasce do meu desejo de explorar a relação entre o movimento do ar e a materialidade da tinta. Sempre me interessei pelo gesto, pelo fluxo e pela imprevisibilidade na pintura, e essa técnica surge como uma resposta a essa inquietação. Inspirada no Action Painting do Expressionismo Abstrato e no pensamento rizomático de Gilles Deleuze e Félix Guattari, minha pesquisa se concentra em um fazer artístico que privilegia o encontro entre forças, sem estruturas fixas, sem controle absoluto.
O termo "Pneumática" vem do grego pneuma, que significa ar, respiração, alma. Para mim, essa palavra sintetiza o que busco na pintura: uma materialidade que se dá no encontro com o invisível, com o que não se fixa, mas se manifesta. A técnica consiste no direcionamento do ar sobre a tinta aplicada ao suporte, permitindo que a composição se crie no diálogo entre a matéria e o movimento.
Desde o início, percebi que minha pesquisa ressoava com o Action Painting, como descrito por Harold Rosenberg, onde o ato de pintar é tão significativo quanto a obra final. Mas, ao contrário da pintura gestual tradicional, aqui o gesto se dilui no fluxo do ar. Não é mais a mão que imprime a energia, mas o deslocamento do invisível sobre a tinta.
Minha pintura se organiza como um rizoma, um sistema de crescimento que se expande em todas as direções, sem centro fixo, sem uma narrativa linear. O pensamento de Deleuze e Guattari me oferece essa chave para entender meu próprio processo: não há um ponto de partida rígido nem uma conclusão definitiva. A pintura acontece no meio, no intermezzo, como um acontecimento que se dá na imanência do momento.
“O rizoma não começa nem conclui, ele está sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo.”— Deleuze & Guattari, Mil Platôs
A tinta, ao se espalhar pelo suporte impulsionada pelo ar, forma camadas imprevisíveis, redes de cor e forma que emergem sem obediência a padrões fixos. Cada pintura se torna um organismo vivo, um vestígio desse encontro entre matéria e fluxo.
Ao valorizar o ar como agente criativo, vejo minha pintura como um diálogo constante entre controle e acaso. O ar, que normalmente nos escapa, ganha corpo ao se chocar com a tinta, modificando sua direção, criando caminhos inesperados. Há momentos em que conduzo o fluxo, há outros em que apenas observo e aceito o que surge. É uma troca contínua, uma escuta do que a tinta e o suporte pedem.
Ainda que pareça uma técnica de liberdade absoluta, percebo que exige um domínio sensível, quase intuitivo. Não é simplesmente soltar o ar sobre a tinta; é necessário compreender o seu comportamento, os efeitos da pressão, a relação com o tempo de secagem, a resposta do suporte. Cada camada é um risco, um gesto no espaço que se materializa e, ao mesmo tempo, se dissolve na continuidade da composição.
Pintar, para mim, é estar nesse espaço intermediário entre o que se controla e o que escapa. A Pintura Pneumática me permite permanecer nesse lugar de experimentação constante, onde cada trabalho é um acontecimento único, um vestígio do movimento e da respiração da matéria.
Hélvio Benício
São Paulo, 02 de abril de 2025
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